A criança do século XXI e a quarentenaData de publicação: 20/06/2020

A criança do século XXI e a quarentena

Existe um ditado chinês que diz que "o grande homem é aquele não perdeu a candura de sua infância". Sabemos que o adulto de hoje perdeu, com o passar dos anos, muito da sua essência infantil. Se nos aprofundarmos, as crianças do passado eram mais ingênuas e tinham brincadeiras no seu grau de sofisticação, assim como havia uma maior integração da família, mais diálogo entre as crianças e mais brincadeiras práticas. No século XXI, a tecnologia desenvolveu-se ao ponto de tornar as nossas crianças nativas digitais e elas dialogam menos com os pais, mas ao mesmo tempo são mais críticas, com muitas expressões definidas para defender o que querem mesmo com um nível de comunicação inferior. 
A dinâmica, os hábitos, a educação e o desenvolvimento das crianças de hoje são diferentes do eram no passado, mas isso não significa que uma criança de uma geração seja melhor que a outra, mas sim que podemos fazer um levantamento dos problemas que as crianças sofrem nos dias de hoje e que se agravaram durante a pandemia e, consequentemente, no período pós-quarentena. O fato deles ficarem longe dos pais na maior parte da semana devido à correria do dia-dia e a substituição da interação pessoal presencial (dos amigos e da família) pela distração tecnológica faz com que atividades como pique bandeira sejam substituídas cada vez mais por um encontro no Playstation.
Uma geração acostumada a uma "rotina a longo prazo" viu que essa realidade se tornou mais evidente durante o isolamento social, com a diminuição das interações sociais presenciais nas escolas, condomínio, atividades culturais e esportivas, igreja e até mesmo no Clube de Aventureiros. Não há dúvidas de que há um impacto nas mentes das crianças que já passavam por problemas de aprendizado e de relacionamento pautados exatamente nesses problemas de relacionamentos com o próximo.
A criança, mesmo com idade de aventureiro, sabe o que está acontecendo. Mesmo que não tenha uma experiência de vida para gerar uma compreensão cognitiva, as preocupações apresentadas nos jornais e nas famílias e a necessidade de se lavar a mão várias vezes gera uma tensão difícil para os adultos e para elas também. O pensamento que a criança não compreende o que acontece a sua volta é uma visão já comprovada como ultrapassada, então o primeiro passo é não subestimar uma criança, mas ser sincera em relação às informações que elas precisam saber. Durante esse período, estamos afastando as crianças de parentes próximos, como os avós, mas é necessário aproximá-los de forma virtual e estabelecer um retorno rápido após o período do covid-19. Para diminuir a ansiedade das crianças, é necessário estabelecer uma nova rotina na vida delas, que ficam ainda mais ansiosas com o "excesso de liberdade". Existem lives muito interessantes, mas você precisa trabalhar com brincadeiras, atividades lúdicas e promover momentos de interação com a família.
Jogos divertidos e de memória são boas sugestões também, assim como brincadeiras criativas, leitura de livros interessantes, pinturas, desenhos, massinha, cozinhar em família, caça ao tesouro, obstáculos para brincarem e correm em casa, assistir filmes etc. Ao terminar esse período de reclusão, é importante que as famílias estabeleçam também atividades externas com uma frequência maior, seja andar de bicicleta, fazer uma caminhada, visitar zoológicos, etc. Acima de tudo, é importante que a criança volte a ter interação com adultos com os quais ela tem uma relação familiar e também com outras crianças. 

Durante a pandemia, é importante também não sobrecarregar as crianças. O pensamento que tínhamos de que "as crianças vão se sentir entediadas e então vamos enchê-las de atividades do clube, igreja, escola, etc, pois será positivo", já está causando um cansaço emocional e físico nelas. Muitas escolas e associações do MDA estão revendo essa necessidade, porque, assim como as famílias, devem ter um olhar de atenção, carinho, amor e cuidado com o crescimento físico, espiritual e psicológico das crianças. Momentos de crise geram reflexão e essa é uma excelente oportunidade para refletirmos e buscarmos soluções para as necessidades das nossas crianças para que elas se tornem adultos felizes e completos emocionalmente.

Rafael Oliveira

Rafael Oliveira

Líder de Aventureiros e Desbravadores

Rio de Janeiro/RJ

Regional ARS/USeB