Crianças no AcampamentoData de publicação: 03/09/2018

Crianças no Acampamento

Se os velhos adágios fossem de fato verdade, com toda certeza, a partir da publicação desse texto, as minhas orelhas iriam queimar. Porém, jamais me esquivei de tocar em qualquer que fosse o assunto por qualquer receio e neste não será diferente. Apesar de no título aparecer a palavra acampamento, entenda que o texto será direcionado para todo tipo de evento.

É notório que em nossas fileiras existem muitos líderes que tem filhos em idades que não há possibilidade de estarem matriculados e que mesmo assim estão presentes em todas as viagens e eventos promovidos pelos ministérios de DBV e AVT. Conheço pessoas que desde o ventre materno já dormiam em barracas e passaram toda a vida pré-clubes participando e viajando. Há algo de bom nisso, pois de certa forma os pais estão cumprindo a máxima do sábio Salomão: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele”. Provérbios 22:6. Mas essa atitude só é de fato louvável quando não traz os transtornos elencados nesse texto.

Em alguns eventos, inclusive no campori sul-americano de desbravadores, o regulamento diz que crianças menores de tantos anos (varia), podem ir, mas com o prejuízo de uma vaga na cota dos 40% que correspondem à direção. Perdoem-me a franqueza tão direta, mas não vale a pena perder alguém que estaria ajudando de forma efetiva no cuidado com o clube e nos pormenores inerentes a um campori só para levar uma criança e agradar seja quem for. Mas e se sobrar vaga? Nesse caso, tudo bem, mas, desde que os pais ou responsáveis pela criança assumam integralmente a responsabilidade de vigiá-la e cuidá-la. No entanto, se os tutores ao invés de cumprirem esse papel, deixarem a criança solta, bem à vontade ou cometerem a falta de senso de destacarem do clube alguém para lhe auxiliar nesse cuidado, sinto dizer, mas só está atrapalhando.

Ouvi de um amigo um caso em que ele ficou responsável por elaborar uma caça ao tesouro em um evento regional. Um casal resolveu levar uma criança menor de seis anos e simplesmente a deixaram livre para perambular sozinha pelo local. A criança conseguiu simplesmente desarrumar tudo o que o líder havia levado horas para montar. Ela tirou pistas do lugar, jogou algumas fora e causou tal desorganização que a atividade foi cancelada. De quem foi a culpa? Você acertou. Some-se ainda a esse tema, o fato de muitas pessoas levarem seus filhos na clandestinidade, fora da lista de inscritos e por tabela, sem seguro. Imagine os transtornos que um sinistro causaria e por favor não me venha com aquela velha exclamação de “onde está a sua fé”, pois tem coisa que extrapola o campo de fé e razão e passa a ser irresponsabilidade.

Entenda que eu não quero desencorajar você de levar seus filhos para as atividades, mas quero te chamar a refletir que se você não tem com quem deixar suas crianças e inevitavelmente precisa levá-las, a obrigação de cuidar delas no evento continua sendo sua, ainda que isso te custe a participação em algumas coisas o que certamente vai te causar a insatisfação de ir somente para ser babá. Se isso te incomoda, procure quem possa revezar contigo nessa tarefa, pois não é justo tomar a vaga de alguém que poderia com efeito contribuir com o clube no evento.

Fui ao III Campori da UneB (Natal-RN, 2010) como diretor do clube. Levei minha esposa e minha filha, então com três anos apenas. Minha esposa ajudava na cozinha e cuidava de nossa menina enquanto eu me desdobrava na correria típica de um campori. Haviam reuniões diárias às cinco e meia da manhã e graças a isso, nos primeiros dias eu as via somente ao me levantar e deitar, ou seja: ainda dormindo e já dormindo. Em uma tarde as encontrei indo para a fila do banho e minha pequena correu para mim perguntando “papai, papai, tu tá lembrado de mim? ”. Procurei onde chorar. Minha filha não estava atrapalhando, mas pelo fato de eu estar totalmente imerso nas atividades, acabei passando por essa tristeza. Preferia não a ter levado do que ter ouvido isso dela.

Reitero que acho muito bonito ver crianças desde o colo frequentarem nossos eventos, mas não vejo nada de louvável quando a presença delas servirá de empecilho para o clube ou para os pais. É desconfortável dizer isso, mas em alguns casos chega o momento em que não dá mais para ir acampar, viajar, etc. Chega uma etapa de nossa vida em que é melhor dar um tempo, parar um pouco, deixar de ir para certos eventos e se dedicar mais à família e voltar quando for oportuno. Pelo bem do clube e até de nossas famílias, vale a pena pensar, não é?

Pablo Rios

Pablo Rios

Líder Máster Avançado de Desbravadores

São José do Jacuípe/BA

Coordenador Regional | MBN /ULB