É preciso saber proibirData de publicação: 20/01/2018

É preciso saber proibir

Sabe aquela situação de quando as crianças foram barradas de aproximarem-se de Jesus? Ou quando os discípulos queriam proibir pessoas que não andavam com eles de expulsar demônios em nome de Cristo? Sempre me perguntei qual seria o motivo dessas repreensões. Na primeira, eles tinham o pretexto do sossego do Mestre, mas e na segunda? Talvez eles estivessem convictos de que realizar sinais deveria ser um privilégio dado somente àqueles que andassem em companhia de Jesus, assim como eles.Talvez este contato direto com o Senhor tenha inflado seus orgulhos ao ponto de fazer do NÃO um esporte. Os tempos são outros, a Igreja tem utilizado cada vez mais as novidades e tendências do momento como forma de evangelização. Com certeza nossos irmãos das décadas de 50 e 60 devem ter visto como heresia a utilização da TV para evangelizar. Eu, particularmente conheço alguns veteranos da fé e até novos de batismo se incomodarem como uso das redes sociais na pregação, mas como eu disse: são outros tempos. Houveram épocas – que tive oportunidade de vivenciar – em que qualquer novidade nas tendências tecnológicas e sociais eram abruptamente vedadas a nós, jovens adventistas, sob a desculpa de serem erradas, pecado, armadilhas do inimigo. Essas proibições não eram feitas com base na Bíblia, Espírito de Profecia ou manual da igreja e sim no mais puro e simples “eu acho”, seguido de uma sonora ameaça de disciplina. Não havia diálogo e os dividendos dessas atitudes eram apostasias e atos de rebeldia, a maioria entre os jovens. O ser humano é, por natureza, contestador e todo ato de represália gera rebeldia. Isso é tão certo como qualquer lei da física. Quando Getúlio Vargas ascendeu ao poder em 1930 por meio de um golpe de Estado, destituiu governadores, dissolveu congresso, câmaras estaduais e municipais e anulou a constituição vigente. Estas resoluções desencadearam protestos contra o governo, que respondia com violência, chegando ao ponto de provocar a morte de quatro estudantes. Nasceu assim o MMDC, movimento centralizado no Estado de São Paulo, que se organizou e junto com forças militares de Mato Grosso marchou para depor Getúlio Vargas. Estourou assim a Revolução Constitucionalista de 1932, que durou apenas 3 meses, com vitória do governo. Perceberam como uma rede de atos de repressão levou à revolta, que levou a novas represálias e a novas rebeldias? Se formos entrar no mérito do período do regime militar no governo federal, teremos vinte e um anos de atentados, sequestros, torturas, manifestações, prisões e etc. Toda uma sequencia em cadeia de repressões e rebeliões que giravam em torno do direito de votar para presidente. Se olharmos para os tempos bíblicos, temos os Zelotes, que promoviam mortes e ataques na Judéia por não aceitarem a ocupação do Império Romano. Desse contexto histórico cheio de tiranos, ditadores, revoltosos e revolucionários, nós podemos tirar uma lição muito valiosa para as nossas lideranças: por que e quando proibir? Nossas funções nos dão certa autoridade. O que estamos fazendo com ela? Será que todas as proibições que fazemos são realmente necessárias ou as temos feito apenas para massagear nosso ego e demonstrar nosso pretenso poder? Seja com novidades ou com pequenos atos, toda decisão de vetar algo para nossos liderados deve ser bem ponderada e discutida com a equipe envolvida, pois não somos monarcas. O ser humano precisa de limites, principalmente aqueles que ainda estão formando o caráter. É por isso que jamais devemos seguir a ideologia de Lennon, o famoso “é proibido proibir”, pois uma boa dose de NÃO nunca fez mal a ninguém. Por outro lado, a negativa jamais pode ser uma constante em nossa liderança, pois assim com todo remédio mal administrado vira veneno, um não mal ponderado só trará resultados negativos. A palavra NÃO pode ter uma utilidade positiva e é assim que devemos trabalhá-la. É preciso saber dizê-la. Saber como e quando dizer não aos seus liderados é uma arte complicada e eu afirmo que dizê-la em vão causa grandes prejuízos. Represália cria rebeldia, por isso toda decisão deve ser tomada sob muita reflexão, com análise, carinho e racionalismo. Se o que nossas crianças estão fazendo ou querem fazer não implica em risco ou prejuízo, o que custa dizer sim? Em tempo, lembre-se de refletir com base nas Escrituras e no manual da igreja quando a decisão envolver nossas crenças, mas, por favor, nunca use versículos fora de contexto para satisfazer seu ego, pois você foi chamado para servir em um Ministério e não para moldá-lo conforme o seu bel prazer. Saiba dizer não e aprenda a proibir quando for necessário. Sugestão de leitura: O Poder do Não Positivo. Willian Ury. 2007, Editora Elsevier.  
Pablo Rios

Pablo Rios

Líder Máster Avançado de Desbravadores

São José do Jacuípe/BA

Coordenador Regional | MBN /ULB