Fé ou Irresponsabilidade?Data de publicação: 26/04/2018

Fé ou Irresponsabilidade?

Santo Agostinho defendia o uso da fé aliado à razão. Como a primeira é a convicção de coisas que não se vê, é necessário que haja um ponto de equilíbrio para usá-la, assim, evita-se que qualquer impressão que tenhamos seja considerada um ato de fé. Por isso este pensador defendia tal teoria, que tem total sentido quando nos deparamos com as francas manifestações de fanatismo que usam disfarce de fé. Como exemplo disso, posso citar o caso de uma irmã que “profetizou” por meio de suas “visões” que o decreto dominical ocorreria no ano de 2005. Bem, cá estamos nós, treze anos depois. Muitas vezes alguns atos que usam uma máscara de fé não passam de impressões sensacionalistas e emotivas. E muitas vezes, algumas pessoas utilizam a fé como desculpa para agir com total irresponsabilidade.

Em nossa rotina, estamos sempre indo a algum lugar, sempre de viagem. Não raro são os acontecimentos em que alguém decide agir de forma inadequada em relação à segurança. Podemos citar vários exemplos, tais como: Alugar um ônibus que esteja em péssimas condições, subir uma serra que tem risco de deslizamento em dia chuvoso, acampar em regiões de enchente em época de chuva, levar um grupo de crianças a um local de banho sem os devidos apetrechos de segurança, dirigir em alta velocidade por estar atrasado para um evento, desobedecer às regras de adequação de veículos às leis de trânsito e muitas outras possibilidades que põem a vida dos outros em risco. Todas essas atitudes irresponsáveis vêm sempre acompanhadas da indagação: “Cadê a fé de vocês?”, sempre que alguém se levanta para discordar.

Cuidado! Não devemos nos aproveitar de que “o anjo do senhor acampa ao redor dos que os temem e os livra” para agir de qualquer forma e colocar os outros em risco. Lembre-se da tentação de Cristo, quando Lúcifer afirmou que o Senhor poderia se atirar de cima do pináculo, pois os anjos o protegeriam, a resposta que teve foi “também está escrito: não tentarás o Senhor Teu Deus”. Não é porque temos a proteção de anjos que devemos abusar dessa proteção andando numa corda bamba sem rede por baixo.

Sempre recebemos notícias de afogamentos e acidentes automobilísticos envolvendo membros de Clubes e mesmo que a Igreja esteja sendo taxativa e exigente em relação ao seguro, os problemas não param de chegar, simplesmente porque alguém decide brincar de testar a fé. É preciso cautela, pois estamos lidando sempre com vidas humanas que não podem em hipótese alguma ser submetidas aos nossos caprichos quando queremos provar que temos uma fé do tamanho de um grão de mostarda, mas que quando alguma fatalidade infelizmente acontece, preferimos dizer que Deus sabe o que faz ao invés de assumirmos que cometemos um erro. Não adianta nada participar de treinamento de primeiros socorros e não saber prevenir riscos.

Algo que tenho em mim é sempre torcer para que não precise nunca utilizar meus conhecimentos de primeiros socorros e resgate. Por outro lado, existem muitos que parecem gostar da possibilidade de correr perigos desnecessários, apenas para provar o quão fervorosos são, para depois colocar qualquer tragédia que aconteça nas costas de Deus. Se esquecem de que fé, apesar de ser uma confiança em algo que não se vê, não pode ser confundida com irresponsabilidade.

Pablo Rios

Pablo Rios

Líder Máster Avançado de Desbravadores

São José do Jacuípe/BA

Coordenador Regional | MBN /ULB