Lições do homem que não deixava a guerra acabarData de publicação: 05/12/2018

Lições do homem que não deixava a guerra acabar

Terminava o ano de 1944 e o Japão estava perdendo cada vez mais território para os Estados Unidos na região do Pacífico. Para tentar retardar o avanço americano, o Exército Imperial Japonês enviou uma guarnição para a pequena ilha de Lubang, nas Filipinas. Os soldados estavam sob o comando do Segundo-Tenente Hiroo Onoda que tinha as ordens de resistir e lutar a todo custo, sem jamais se render. Todos estavam cientes de que era uma missão suicida e o que aconteceu veio confirmar essa hipótese. A guarnição foi praticamente dizimada ou se rendeu em fevereiro de 1945, e apenas Onoda e três de seus homens escaparam. Os quatro iniciaram uma guerrilha contra o exército americano e a população local, promovendo assassinatos de soldados e nativos, roubos a rotas comerciais e incendiando lavouras no intuito de atrapalhar os Estados Unidos.

A guerra acabou seis meses depois, com o ataque atômico às cidades de Hiroshima e Nagasaki. O Japão havia sido derrotado, mas mesmo assim, Onoda com seu grupo e milhares de outros soldados desertores continuaram saqueando e atacando a região, causando sérios problemas nas conhecidas reconstruções pós-guerra. O Japão, junto com os EUA jogaram panfletos na floresta anunciando o fim da guerra e ordenando que os soldados voltassem para casa. No entanto, Onoda e seus homens, como muitos outros, julgaram que aquilo se tratava de um armadilha americana para fazê-los se render. Queimaram os panfletos e permaneceram na luta.

Cinco anos após o fim da guerra foi a vez do governo filipino espalhar panfletos com conteúdo similar, que foram também ignorados. Em 1952, o governo japonês espalhou fotos e cartas das famílias dos soldados desaparecidos para tentar convencê-los do fim da guerra, mas eles persistiram em continuar lutando. Em 1959, um dos companheiros de Onoda foi morto e outro se rendeu. Em 1969 ele ficou inteiramente só, quando seu último aliado foi morto pela polícia local. Quase vinte e cinco anos depois do fim da II Guerra Mundial, a luta desses bravos soldados terminou e Hiroo Onoda desapareceu na floresta para se tornar uma lenda no Japão. Em 1972, os governos do Japão e Filipinas enviaram grupos de busca para procurar o segundo-tenente, já romantizado como herói por alguns e criticado por outros como assassino. A missão foi um fracasso.

Naquele mesmo ano, um jovem aventureiro e meio hippie chamado Norio Suzuki, desejoso por novos desafios saiu no encalço de Onoda e após quatro dias gritando o nome do tenente e dizendo que o Imperador estava preocupado com ele, o encontrou. Aqueles dois homens bucólicos e excêntricos passaram um tempo juntos na floresta. Hiroo estava desesperado para saber como estava o mundo e, sua terra, o Japão. Uma das perguntas que Suzuki fez ao folclórico tenente foi o porquê de ele não ter reconhecido o fim da guerra e a resposta foi simples: “eu tinha ordens de não me render”. Então Norio Suzuki partiu para terminar a sua aventura, que era encontrar um panda e o “Abominável Homem das Neves”. Morreu anos depois em uma avalanche no Himalaia, quando tentava cumprir o último objetivo de sua jornada.

Onoda voltou ao Japão em 1974, onde se tornou um herói e da noite para o dia era a mais nova celebridade da terra do sol nascente. Foi a programas de TV, deu entrevistas, foi cumprimentado por muitos políticos, escreveu um livro de memórias e recebeu uma boa quantia em dinheiro pelos serviços prestados ao país. Mas o Japão que encontrou não era mais o mesmo. Ele encontrou uma cultura totalmente voltada ao consumo capitalista e embebida em cultura ocidental. Tentou usar seu prestígio de celebridade para defender os antigos valores, mas ele era apenas uma peça de museu, e não um pensador. Percebeu que o país que defendeu não era mais o mesmo e que sua luta havia sido em vão. Decepcionado, mudou-se para o Brasil em 1980 e aqui viveu por 14 anos. Faleceu em 17 de janeiro de 2014 em Tóquio, aos 91 anos.

A história de persistência de Hiroo Onoda nos traz duas lições, uma delas pode ser bastante dolorosa, principalmente para aqueles, que como eu, já estão no ministério a um tempo considerável. Sua determinação em cumprir a ordem do Imperador em “não se render jamais” é um molde a ser usado por todos nós quando as adversidades surgirem em nossa frente. Não desistir, não se render, lutar até o fim ou até depois dele, pois nosso alvo está além deste mundo. Essa é a primeira lição. Mais do que simplesmente persistir, é preciso saber pelo que persistir. Com toda certeza foi muito difícil para Onoda não reconhecer sua amada terra depois de décadas de luta por ela. Da mesma maneira, é muito doloroso para nós, líderes da velha guarda, perceber que muitas de nossas tradições e regras estão sendo avacalhadas pelas novas gerações.

No entanto, o sentimento de saudosismo já se provou ineficiente para o trato com as novas gerações. Hiroo Onoda estava infeliz com o Japão que encontrou após trinta anos, ele não entendia as mudanças, pois esteve fora e não teve a oportunidade de acompanhar o processo que levou a nação a se transformar. Decepcionado, reconheceu que enaltecer o passado não funciona. Nós, que fomos formados em outro tempo, sob outra ótica e em outra realidade, ansiamos por Desbravadores mais dedicados e comprometidos como nós e nossos contemporâneos eram, mas temos que ter em mente que o tempo muda as coisas e as pessoas e que as novas gerações, que tem tudo na ponta dos dedos em suas telas de smartphone, jamais serão como fomos e nem nós seremos um dia como eles. Se para nós, que permanecemos na ativa é difícil perceber as mudanças, imagine para aqueles que passam anos longe da luta.

Não estou dizendo que não vale a pena lutar pelos nossos valores, mas que devemos defendê-los, transmiti-los e perpetuá-los sabendo que os tempos atuais exigem de nós uma nova forma de fazer tudo isso. Não é mudar os princípios, nem desistir da luta, mas saber pelo quê e se vale a pena lutar da mesma forma. Diferente de Hiroo Odona, não devemos considerar em vão as nossas lutas, mas devemos lutar de forma que não venhamos a nos sentir assim e ter certeza que nossa 'guerra' de cinco, dez, vinte ou trinta anos vale a pena.

Informações históricas extraídas dos livros:

1. No Surrender: My thirty-year war. Hiroo Odona. Disponível no site da Amazon.com

2. A sutil arte de ligar o F.....-se. Mark Manson. Editora Intrínseca

Pablo Rios

Pablo Rios

Líder Máster Avançado de Desbravadores

São José do Jacuípe/BA

Coordenador Regional | MBN /ULB