Não somos o exércitoData de publicação: 31/10/2020

Não somos o exército

Não irei me ater à rodeios e vou começar a conversa logo no centro do tema: de uma vez por todas, Clube de Desbravadores não é Forças Armadas! Ainda que possamos nos referir a nós mesmos como sendo um “exército de lenço a serviço do Senhor”, o sentido da palavra não é e jamais será militar. É uma expressão meramente figurativa. Mas, infelizmente, precisamos conviver com aplicações práticas dessa ideia.

Sabemos que a ordem unida e civismo devem seguir a norma padrão do manual do exército brasileiro e isso é tudo o que deve existir de semelhante entre nós e eles. O próprio RUD, em seu artigo 6º, na página 9, diz que “não é permitido alterar as características dos uniformes, nem sobrepor-lhes peça, artigo, insígnia, ou distintivos de qualquer natureza, particularmente o que caracterizem origem militar, turística e/ou desportiva, estranhos a este regulamento”. Isso se aplica não somente aos Desbravadores, como também a Aventureiros e Jovens.

Há muitas coisas das quais poderíamos falar dento desse tema, mas no presente texto irei focar em um ponto apenas: comparações desnecessárias.

A disciplina é um de nossos pilares e é altamente necessária para tudo na vida, bem como é crucial para o desempenho eficaz do Clube de Desbravadores. As regras que temos são baseadas em estudos sociais e psicológicos, de acordo às idades de nosso público alvo. Não preciso dizer que o modus operandi rígido, intempestivo e até grosseiro da vida militar não tem nada a ver com o ministério e não é construtivo em nenhuma faixa etária de nosso aprendizado. Se você, apreciado leitor, é oriundo de alguma das forças armadas, por favor, deixe as suas rotinas por lá. Caso hajam momentos de desafios, descontração e diversão é, de fato, divertido haver pressão sobre a galera, desde que eles entendam que estão numa brincadeira e que isso não é feito em nenhum momento de instrução.

Posso até ouvir a mesma contestação tão repetida: “Ah, irmão. Mas no exército é assim”. Não somos o exército. Essa comparação não cabe.

Outro ponto em que há esse tipo de comparação é na questão do uso do uniforme oficial. Não me refiro ao uniforme propriamente dito, seus emblemas e materiais, o que está no RUD é inegociável e ponto final. Mas, em nenhuma página o regulamento de uniformes fala sobre cabelo. Alguns campos e Uniões criaram orientações a respeito disso, determinando que, ao vestirem o uniforme de gala, os meninos tenham seus cabelos alinhados, bem cuidados e a barba (os que tem) bem feita. Quanto às meninas, existem orientações que pedem cabelo preso ou arrumado de forma a não cobrir o lenço. Mas aqui é que acontece a maior das injustiças: a tal da padronização.

O que é que há que tanto líderes tem essa fixação com padronização? Sinceramente, não há como entender. Conheço regulamentos regionais que determinam que as meninas usem impreterivelmente coque, sem nem ao menos levar em consideração que nenhum tipo de cabelo é igual um ao outro. Existem texturas e comprimentos que não permitem o uso do coque. Conheço desbravadoras que não se sentem bem ao usar, por não gostarem ou por não se sentirem bem ao usar. Mas, infelizmente, a paixão de algumas pessoas pela padronização não leva isso em conta, pois para manter tudo de forma única é mais importante sacrificar o bem estar da pessoa, fazendo do uso do uniforme um verdadeiro fardo.

“Mas uniforme vem de unidade, então deve ser igual”. Sim, mas o manual não se refere ao penteado como parte do uniforme e sequer o menciona. “Mas no exército é assim”. Não somos o exército. Há de fato a orientação de que o cabelo seja usado de forma a não cobrir o lenço, pois bem: trança, rabo de cavalo, Maria-Chiquinha, black power e cabelo curto não cobrem ele. Opção é o que não falta. Se não for para padronizar o penteado masculino (e com certeza não vão), por favor, deixem as meninas em paz e parem de inventar regras sem base ou para alimentar o próprio ego.

Não há motivo algum para querer determinar padronização do penteado das meninas, ainda que isso exista em qualquer organização altamente uniformizada, como as forças armadas. Não temos as mesmas missões, não temos nada a ver com eles, não devemos igualdade nenhuma a eles.

Não somos o exército.

Pablo Rios

Pablo Rios

Líder Máster Avançado de Desbravadores

São José do Jacuípe/BA

Conselheiro no Clube Arautos da Fé ABN/ULB