Nosso lenço também é amarelo: uma reflexão sobre a depressão e o suicídioData de publicação: 10/10/2018

Nosso lenço também é amarelo: uma reflexão sobre a depressão e o suicídio

Setembro já passou e com ela as campanhas em prevenção ao suicídio. Inicia-se agora o outubro rosa, que busca conscientizar as mulheres em relação aos números assustadores de câncer de mama. Durante o setembro amarelo, nós pudemos ver muita gente nas ruas ostentando em suas lapelas a fitinha com a cor da campanha e a mesma cor tomar conta das redes sociais. Isso é bom, pois significa que as pessoas estão comprando a ideia e aderindo à causa. Não direi que esperei setembro passar para escrever sobre isso, mas talvez você se pergunte porque insisto em escrever agora. Muito simples: as pessoas não se suicidam só em setembro e nossa luta contra esse mal deve ser o ano inteiro. Sabe aquela velha sensação que costumeiramente temos de que certas coisas jamais acontecerão conosco? Pois é. É comum pensar assim, mas não raro somos surpreendidos com tragédias e o suicídio não está fora dessa lista de eventos indesejados. A depressão é um dos principais fatores que levam alguém a tirar a própria vida e infelizmente, durante anos, nossas lideranças (não nos excluindo) preferiram se omitir em relação a este assunto. Já tive que ouvir absurdos, inclusive no púlpito, tais como: “depressão é coisa de quem não tem Deus no coração”, “isso é falta de oração”, “essas pessoas precisam se apegar com Deus”, “isso é frescura” e outras barbaridades, que certamente não seriam ditas a quem sofre de diabetes, câncer e outras doenças. Pessoas desinformadas ou acometidas pela chaga mortífera do fanatismo tendem a excluir a depressão do rol das doenças e mesmo após convencidas de que este mal é uma patologia ainda afirmam que “quem tem Jesus no coração enfrenta a doença de forma diferente”. Mais um ledo engano. A pessoa deprimida não tem poder sobre o que sente, pois, a depressão é uma doença que afeta o psicológico. É por isso que os especialistas afirmam que o suicida não quer matar a si mesmo e sim à dor que sente e no momento em que atenta contra si próprio, já não está mais em si. Aquela velha tradição de acreditar que aqueles que se matam não tem salvação já não tem crédito e nem mesmo base sustentável. Deus conhece o coração de cada um e assim como Sansão, um suicida, foi salvo por sua graça e contado entre os heróis da fé, Ele certamente ampara seus filhos que por um ato de desespero incontrolável recorrem a suicídio. O profeta Elias, tão amado por Deus que foi levado vivo aos céus, viveu também o seu momento e depressão, descrito em I Reis 19, quando isolou-se na caverna lamentando ser o último profeta vivo que falava em nome do Senhor. Elias, depois de tudo que fez e que estava prestes a fazer, pediu para si a morte. Faltava Deus na vida do profeta? Após a repercussão do jogo da baleia azul e do processo de vida vegetativa causado pela internet móvel, temos um gigante a ser enfrentado em nossa sociedade, que por tabela está infiltrado em nossos clubes: o cada vez mais crescente número de adolescentes, jovens e adultos que sofrem de depressão, que se cortam e que confessam que, em algum momento, sentiram ou sentem à vontade de se matar. Infelizmente muitos líderes não estão preparados para isso e alguns até ignoram a situação. É preciso extrapolar o Setembro Amarelo e o Quebrando Silêncio também e estender a prevenção por todo o ano e todo lugar. Precisamos estar abertos e receptivos para aqueles que nos procuram para falar de seus problemas, pois nossa liderança deve ser muito mais do que voz de comando e reuniões. Devemos ser líderes/amigos/ouvintes/conselheiros e termos a responsabilidade de reconhecer quando não formos capazes de ajudar; e quando não formos capazes de ouvir e acolher, devemos direcionar a quem possa, mas jamais menosprezar a dor e as tempestades pelas quais a pessoa passa. Resumindo, até de forma indelicada: se não sabe como falar, é melhor se calar. Não adianta usar camisetas e carregar faixas do Quebrando o Silêncio e depois magoar com palavras alguém que sofre uma depressão. Eu e outros líderes temos sido procurados por muitos de nossos membros da nação de lenço, e essas pessoas estão em busca de alento para si próprias ou buscando saber como agir com Desbravadores deprimidos. Ah, você não sabia que Desbravador também fica deprimido? Bem-vindo ao mundo real. Pois nenhum de nós está livre. Setembro já passou, mas lembre-se que nosso lenço é amarelo. Uma das mais belas parábolas de Jesus é a da ovelha perdida. É emocionante ouvir o relato do pastor de deixa as noventa e nove ovelhas no curral para buscar apenas uma que se perdeu, não é? Mas e as ovelhas que permanecem, como elas ficam? Confiando no pastor e cuidando umas das outras. Assim deve ser conosco.  
Pablo Rios

Pablo Rios

Líder Máster Avançado de Desbravadores

São José do Jacuípe/BA

Coordenador Regional | MBN /ULB