O retorno quenianoData de publicação: 02/12/2020

O retorno queniano

Eu costumava assistir à Maratona São Silvestre e outros eventos do tipo pela TV e ficava me perguntando o porquê de os quenianos estarem sempre no pódio e quase sempre no lugar mais alto. Confesso que ficava com raiva aos vê-los chegar aqui e levar os prêmios que em minha cabeça de menino deveriam ser obrigatoriamente dos atletas brasileiros. Mas nem por isso eu deixava de admirar a desenvoltura e resistência daqueles excelentes velocistas africanos. A segunda pergunta me vinha à mente era: como eles conseguem?

Entre algumas explicações que pretendiam ser bem humoradas estava a que eles estão acostumados a correr assim para caçar gnus, zebras e impalas e a fugir de leões, leopardos e hienas. Gostaria de abrir um rápido parêntesis para fazer justiça aos etíopes, que correm tão bem quanto os quenianos, mas possuem menor destaque nos esportes e na mídia, por isso irei me falar somente sobre os atletas do Quênia.

O doutor em fisiologia Turíbio Barros define em um de seus artigos oito pontos que podem explicar essa habilidade. Entre seus apontamentos está o alto índice de hemoglobina, como também uma genética privilegiada pelo meio ambiente. Para ele, a iniciação precoce a atividades físicas longas, alinhada a uma mecânica corporal aperfeiçoada e a uma formação muscular acostumada à resistência são pilares importantes dessa característica única dos quenianos. Não podemos nos esquecer da dieta altamente calórica rica em carboidratos  e a vivência em um país de altitude relativamente elevada. Barros elenca por último a motivação para mudar de vida como outra explicação para este sucesso.

Adauto Domingues, treinador de Marílson dos Santos, bicampeão da maratona de Nova York em 2006 e 2008, afirmou sobre os quenianos que não “dá para isolar apenas um ponto” e completa que a geografia do país os impele a ter essa resistência em longas distâncias. Seja qual for a fórmula para que estes atletas cheguem a esse patamar de preparo, devemos nos inspirar é no modo como eles correm e não no porquê correm desse modo.

Já vi muitas pessoas afirmarem que ao correr uma maratona, deve-se começar devagar, com um pequeno trote e dar um impulso na velocidade nas partes finais da competição. Há quem diga também que a melhor estratégia é dar tudo de si no começo para conseguir distância e após isso apenas administrar a vantagem. Não sou nenhum especialista para dizer qual é a melhor forma de vencer uma maratona, afinal de contas eu sou uma verdadeira lesma para correr, mas posso afirmar plenamente que o método queniano é melhor.

Eles correm no mesmo ritmo da largada até a chegada. Sua resistência lhes permite manter o mesmo ritmo e continuar correndo de forma firme e sem oscilações, não havendo motivos para se preocupar com reserva de energia ou com o momento de explodir em velocidade. Isso chama-se consistência e esse método pode ser usado para todo e qualquer setor de nossas vidas.

Nesse momento comum em que vivemos afastados de nossas atividades presenciais por conta da pandemia e em outros tempos que virão, precisamos de consistência em nossas atividades. A falta de regularidade nas reuniões e nas demais realizações muitas vezes nos deixam no ostracismo e causa, inclusive, fechamento de clubes, além da evasão dos participantes. É comum que ao passar por momentos assim, muitas direções se dediquem a elaborar planos e eventos de reavivamento que se tornam mega acontecimentos na esperança de que o frenesi dos apelos e dos vídeos cheios de motivação dure o ano todo.

Turminha, todos esses fogos de artifício serão inúteis e a empolgação pode acabar junto com o cheiro de pólvora. Se o seu clube não foi antes, por favor sejam consistentes daqui pra frente. Reinventem-se, utilizem as redes sociais e a tecnologia no que for possível durante esses tempos de distanciamento. Visitem os desbravadores sem precisar entrar em casa. Façam a visita de portão, mas, por favor, mantenha o vínculo. E quando tudo isso passar, por favor deixem de lado os grandes acontecimentos e façam com que, mesmo sem barulho ou pompa algo sempre esteja acontecendo.

Consistência é palavra para a volta às nossas atividades regulares. Ao voltar, que seja um retorno queniano, com um bom ritmo e assim não serão necessárias as explosões de velocidade na largada, pois onde falta consistência, pode não haver chegada.

 

Referências:

http://globoesporte.globo.com/eu-atleta/saude/noticia/2015/05/o-que-faz-corredores-africanos-serem-tao-bons-explicacao-em-8-fatores.html

http://temas.folha.uol.com.br/potencias/atletismo-quenia/medalhista-olimpico-diz-que-exigencia-levou-ao-sucesso-do-quenia-prata-nao-vale-nada.shtml

Pablo Rios

Pablo Rios

Líder Máster Avançado de Desbravadores

São José do Jacuípe/BA

Conselheiro no Clube Arautos da Fé ABN/ULB