O sangue não bastaData de publicação: 04/08/2020

O sangue não basta

Durante a saga de Números, você acompanhou parte da jornada do povo hebreu pelo deserto. Estas lições são baseadas nos capítulos 10, 11 e 12 do quarto livro das sagradas escrituras. Moisés enfrentou problemas terríveis com o aquele povo de coração duro, mas será que ele esperava tão grande tribulação vinda de seu próprio sangue?

 

“Será que o Senhor tem falado apenas por meio de Moisés? [...] Também não tem Ele falado por meio de nós?”. Com essa frase registrada em Números 12:2, Miriã iniciou um conflito familiar junto com Arão e contra Moisés. Movidos pelos ciúmes de Zípora, esposa de seu irmão, eles falaram contra o líder escolhido por Deus para ser seu porta-voz. O fato de terem um laço consanguíneo os fazia crer que tinham os mesmos direitos e autoridade que Moisés. Se você ler os versos do mesmo capítulo até o 16, verá não somente a lição duramente aprendida por Miriã por seu pecado de inveja, como também o Senhor reafirmando de quem era a liderança ali. Esse texto não é sobre inveja.

Uma realidade triste em todas as instituições (e nesse bojo também as religiosas) é que sempre há famílias que gozam de certo prestígio e com isso têm alguma autoridade e às vezes privilégios extraoficiais. Por favor, não negue isso. Dentro desse quadro,  às vezes também surge alguém demonstrando ter o comando, dando ordens com ares de autoridade sobre todo um grupo. Quem observa de fora pode até pensar: diretor(a) ou [email protected] Daí descobre que na verdade ser trata de alguém da instrução, [email protected] ou que às vezes nem é membro do clube. E a autoridade, de onde vem? Nova descoberta: trata-se de cônjuge, filho ou parente próximo do(a) diretor(a).

Isso está errado em vários níveis. O sangue (ou a certidão de casamento) não bastam.

Pra começo de conversa, nenhum conselheiro ou conselheira tem autoridade sobre outros, pois estão na mesma linha hierárquica. Menos ainda um conselheiro terá sobreposição de autoridade sobre uma conselheira (e vice e versa), pois são alas diferentes. Então, se pelo próprio organograma que aprendemos nas classes regulares não há base alguma para destacar um membro da direção de outros no que diz respeito ao comando, o que faz algumas pessoas pensarem que parentesco significa algo para isso?

A eleição para um cargo de liderança não vem com cartão adicional, não existe um bônus para que os membros da família desfrutem do poder, mas assim como Miriã e Arão se acharam no direito de se sentirem acima do escolhido por Deus para liderar, há muitos que hoje em dia exercem autoridade indevida em nossas fileiras e encaram esse equívoco com uma naturalidade revoltante para os demais membros do grupo.

Essa situação tende a se agravar quando é naturalizada e se torna cultural, o que torna a hierarquia algo difícil de funcionar, pois haverá gente demais exercendo autoridade e comprometendo a disciplina dos menores. Sempre repito que não somos o exército, mas temos hierarquia e ela precisa funcionar. Foi necessária e intervenção de Deus no deserto para que os irmãos de Moisés entendessem que o sangue não basta para ter e merecer a autoridade. Nos dias de hoje, porém, não se faz tão necessário que isso ocorra, pois ainda temos esperança de que conselhos façam com que pessoas reflitam e mudem. Mesmo não sendo alguém qualificado para tal, ouso dar-lhes três conselhos.

O primeiro é para você que se julga autoridade por extensão de algum familiar seu. Se você tem um cargo, exerça as suas respectivas funções, sem atravessar o comando de ninguém e sem querer se sobrepor aos outros. Assim você contribui muito para o bom andamento do clube. Caso não tenha cargos, não haja como se tivesse, você só vai atrapalhar. Não é necessário estar mandando para ajudar. Mas se você sequestra uma autoridade que não é sua, com toda certeza irá atrapalhar. E caso você não seja membro do clube, por favor pare de agir assim, pois seu grau de parentesco com a liderança não tem valor nenhum dentro da nossa hierarquia.

O segundo é para você, membro regular que se incomoda com esse tipo de situação: conteste, indigne-se e reclame. Se a pessoa não é hierarquicamente superior a você, se não é membro do clube, você não tem dever algum de obedecer. Mas por favor, não haja com desrespeito ou grosseria. Se a pessoa tentar dar ordens, apenas diga não e com educação chame-a para a realidade dos fatos: parente não é cargo. Não permita que essa situação se enraíze, chame seu líder e registre seu protesto. Mas não custa nada atender se a pessoa te pediu um favor. Estamos falando aqui de hierarquia e não de convívio. Seja sempre cortês.

O terceiro, porém, mais importante, é para você líder. Por favor, não deixe essa situação acontecer. Conscientize seus familiares de que eles não recebem autoridade por tabela através de você. A posição de liderança é sua e caso você deseje um clube com disciplina e hierarquia, mantenha a autoridade organizada e restrita a quem tenha o direito. Nestes textos da Saga de Números, você leu a respeito de como Moisés precisou liderar não somente o povo, mas também a família, ou você achou que em todas leituras o foco era apenas o seu clube? Moisés era antes de tudo um levita e estava liderando também os de seu sangue.

Você precisa entender que o seu clube ou unidade está dentro de sua casa e que todos devem cooperar uns com os outros. Tenha mentores, organize-se, saiba o que atender, entenda o peso de liderar, divida a carga, mas lembre-se de que são famílias diferentes que você tem para liderar e que uma não pode comprometer o desempenho da outra.

Maranata.

Pablo Rios

Pablo Rios

Líder Máster Avançado de Desbravadores

São José do Jacuípe/BA

Conselheiro no Clube Arautos da Fé ABN/ULB