Por que ainda uso este lenço?Data de publicação: 23/03/2019

Por que ainda uso este lenço?

“A vontade de escalar tornou-se fobia de altura. A face do penhasco transformara-se antes em algo onde agarrar-se do que em um desafio a ser vencido. Havia muito mais esgotamento que animação”. (Michael E. Gerber – O Mito do Empreendedor)

É comum que após anos de dedicação a uma coisa, um ideal, uma missão, uma instituição, cheguemos a um ponto em que nos perguntamos o motivo de continuar ou se estamos no caminho certo. João Batista, após anos pregando a vinda de Cristo, testemunhar Dele na frente de uma multidão e batizá-lo mandou-lhe perguntar se ele era realmente o Messias ou se deveriam esperar outro e isso não o desqualificou de modo algum. Você com certeza já sentiu o peso dos anos passados em sua luta e em algum momento com certeza disse a si mesmo que não dá mais para seguir. Estava agarrado à face do penhasco, esgotado e com medo de escalar.

Já passei por momentos assim e no mais recente me vi andando sem direção até achar um lugar onde passei um tempo refletindo entre soluços. Me perdoem, mas este é sim um desabafo pessoal que vem se acumulando desde alguns anos para cá. O lugar onde parei para refletir foi um bosque do Parque do Peão em Barretos e o momento foi o V Campori Sulamericano, edição ômega.

Já faz algum tempo que a mercantilização do ministério dos Desbravadores inquieta a mim e a outros tantos que comigo falam. Venho de um tempo em que a carência de materiais e a dificuldade de acesso nos deixava à margem da padronização e das novidades. Com a internet e a flexibilização da distribuição de materiais passou a ser possível a compra, acúmulo e até o colecionar de materiais referentes ao ministério. Mas com essa onda surgiu um mercado que criou uma bifurcação na nossa estrada, pois, me perdoem ser tão direto, a grande variedade de itens colecionáveis terminou por tirar o foco de nossos ideais.

Não culpo (mas também não inocento) os distribuidores, pois são pessoas que vivem disso e precisam ganhar seu pão de cada dia, mas testemunhei em um campori de União em 2016 uma cena deplorável: lojas funcionando de portas fechadas na sexta à noite, dentro das quais os negócios eram feitos aos sussurros. Não acreditei quando me disseram e fui conferir. Era verdade. Culpados fornecedores e os consumidores. E não há necessidade de ser cauteloso ao dizer que, nos camporis, é comum que as filas se formem nas portas das lojas antes de o sol se pôr no Sábado. Todos já presenciamos isso. Mas como eu disse, o momento em que me agarrei ao penhasco foi no campori DSA.

Quem esteve presente sabe muito bem que o sol estava se pondo após as 20 horas, mas mesmo assim, era possível ver aglomerações aguardando o funcionamento do shopping a partir das 17:30 e, mais tarde ao passar próximo a essa confusão, pude ouvir pessoas exigindo a abertura das lojas às 19:00, com sol ainda no céu. A essa altura eu já estava refletindo o porquê deveria continuar escalando, já havia perdido a graça para assistir a programação, na qual não consegui ficar e decidi ir ao bosque orar. No caminho ouvi líderes indignados com a ordem do Pastor Udolcy de permitir o funcionamento do shopping somente após as 21 horas.

Mas nada comparou-se ao frenesi e porque não dizer selvageria que tomou conta de muitas pessoas por conta do arganel das bandeirinhas. Vendido a trinta reais, a peça esgotou-se rápido e se tornou item extremamente procurado a ponto de ser apelidado de “O Desejado de Todas as Nações”. Grupos de Whatsapp foram criados para a procura desse arganel e o cambismo se espalhou como uma bactéria pelo evento. Percebendo a grande demanda e pouca oferta, algumas pessoas adquiriram o máximo que podiam destes arganéis e passaram a vendê-los a preços absurdos, 50, 60, 90 e até 100 reais, como ouvi comentários e até confirmações de quem pagou. Mais de um desses cambistas foram vistos no sábado à tarde anunciando o produto para a noite, com seus lenços cheios do desejado objeto.

Muitas foram as histórias que vi e ouvi, desde líderes de lenço (não de alma) entrando no bar do parque para comprar nas horas sabáticas até um cambista que teve a sacola dos arganéis rasgada por ávidos compradores e tudo isso me fez pensar: Por que ainda uso este lenço?

Estamos sendo engolidos pela comercialização do nosso ministério, muitos estão pegando o caminho errado na bifurcação e infelizmente parecem não saber como voltar. Não há problema em colecionar, consumir, lucrar, mas muitos parecem resumir toda a nossa filosofia a meros coletes cheios de pins, trunfos e emblemas de campo. A disputa do quem é o melhor, quem tem mais está ganhando mais terreno do que o “salvar do pecado e guiar no serviço”. Quem tem os itens mais raros, quem faz o melhor campori, quem tem o arganel mais bonito são fatores que tem ganhado mais destaque do que o caminho estreito.

Eu ainda uso este lenço porque acredito no Clube de Desbravadores e na missão que é possível realizar através dele. Mas por que continuar usando se a quantidade de coisas em meu colete ou se ter o arganel que ninguém tem for mais importante que mostrar Cristo para nossos meninos e meninas?

Pablo Rios

Pablo Rios

Líder Máster Avançado de Desbravadores

São José do Jacuípe/BA

Coordenador Regional | MBN /ULB