Rambo não existeData de publicação: 17/11/2020

Rambo não existe

Sou desbravador desde setembro de 1994 e, “em todos estes anos nesta indústria vital”, frequentei treinamentos do nível mais básico ao mais complexo e afirmo, sem nenhum tipo de receio,  que muito do que ouvi foi desnecessário. Com o passar dos anos, os líderes, instrutores e coordenadores foram compreendendo que não há lugar para militarismo em nosso ministério, mas muito do que foi feito assim ainda apresenta efeitos negativos.

Não nego que seja divertido colocar alguma pressão na galera durante provas de falsa baiana ou quando rastejam numa pista de lama com os olhos vendados. A galera entra na onda e sendo nesses momentos em que não nada a aprender, somente brincar, não há problema. Mas na hora do aprendizado não há nada de construtivo, bom ou engraçado na atitude de fazer pressão ou ficar de gritaria nos ouvidos dos outros. Por favor, sem aquela conversa saudosista de que “bom era no meu tempo” ou “esses desbravadores de hoje são muito moles”, pois isso nunca foi correto. Militarismo jamais devia ter tido lugar em nossos trabalhos.

O tempo muda tudo e assim também é com o conhecimento, muitos líderes agiam dessa maneira por falta de capacitação e, na maioria das vezes, por já terem encontrado a situação assim. Eu, infelizmente, no começo de minha liderança, agi como um sargentão mal humorado que dava respostas grosseiras e falava de forma áspera com todo mundo, pois fui moldado assim. Ao mesmo tempo, porém, fui percebendo que estava reproduzindo o que recebia de errado. Sim, muitos eram inocentes nessas atuações, mas ainda assim estavam errados.

Durante muito tempo, era cultural acreditar que havia uma fórmula para criar um bom desbravador – aquele tipo que hoje é considerado raiz – e essa fórmula, supostamente, envolvia habilidades campestres de um verdadeiro Rambo, ou seja, treinamento e disciplina tipicamente militares. Tudo isso diante de uma realidade lógica e muito simples de entender: Rambo não existe e (mais uma vez) nós não somos o exército. Não é na base da aspereza e dos gritos que se deve tratar as nossas crianças de dez a quinze anos. Também não há justificativa alguma para fazê-lo com o público dos dezesseis anos acima, pois essa não é a nossa filosofia.

Passar com a mochila dentro da água, acordar de madrugada para uma atividade de orientação, precisar conquistar os mantimentos da próxima refeição, passar de olhos vendados por uma trilha e outras coisas do tipo, devem servir como recreação e depende muito da faixa etária do grupo. Mas cuidado ao colocar estes altos graus de complexidade como parâmetro para definir quem é ou não um bom desbravador. Afinal de contas, acender fogueira com um palito de fósforo e dormir em abrigos não faz ninguém superior aos demais e obrigar que os outros façam isso sob gritaria, mais atrapalha e desamina do que instrui.

É fato que, em outros tempos, era muito comum que os líderes dos clubes fossem oriundos das fileiras das forças armadas, pessoas que estavam acostumadas a disciplinas rígidas e por natureza trouxeram isso para nós. Ainda assim, não se justifica. Erraram ao não saber dividir as coisas e em seu modo de agir, acabaram excluindo um bom número de potenciais líderes. Teriam tido outro futuro dentro do ministério se não precisassem enfrentar uma linha dura? Será que não estariam exercendo funções dentro do ministério, se não tivessem sido levados a crer que a classe de líder é um status que só pode ser alcançado por uma casta superior que os autoriza a agir de forma rude com os demais?

Atitudes grosseiras servem apenas para alimentar a vaidade de quem age assim, mostrando uma capa de habilidades que não vai além da pompa, da impulsão por dar ordens que, na maioria das vezes, não é capaz de cumprir.

É duro ler isso? Talvez não seja tanto quando nos colocamos no lugar do outro. Quando pensamos naqueles que ouviram palavras tão ou mais duras que estas por terem feito uma simples pergunta ou quando não conseguiram acender a fogueira com um palito.

Mais empatia, por favor.

Pablo Rios

Pablo Rios

Líder Máster Avançado de Desbravadores

São José do Jacuípe/BA

Conselheiro no Clube Arautos da Fé ABN/ULB