Saudades da dorData de publicação: 19/07/2020

Saudades da dor

Anteriormente em A Saga de Números, você acompanhou as drásticas mudanças sofridas pelo povo hebreu ao deixar os arredores do monte Sinai e com essa guinda testemunhou as necessidades de apoio que Moisés precisou: um mentor e a divisão da liderança espiritual daquela nação nômade. As murmurações foram tantas que levaram o grande líder às raias da depressão. O povo não sabia o que queria e por isso seria novamente punido.

 

O povo israelita literalmente chorava perguntando “que nos dará carne para comer(?)” (Números 11:4) e faziam comparações quanto à alimentação dada por Deus no deserto – o maná – chamando-o de pão vil e externavam a sua nostalgia de estarem junto às panelas de carne comendo pão, melões, melancias, alhos, alho-poró, pepinos e cebolas. Clamavam pelos peixes que, segundo eles, comiam “de graça”. (Números 11:5)

Observe que no momento de queixas agiram cm ingratidão e com um grave problema de memória seletiva, pois, por não encontrarem o que desejavam, omitiam o fato de que toda essa comida eles tinham em troca do trabalho escravo, opressão e genocídio. Não era de graça, em troca de comida eles preferiam estar sob o jugo egípcio e perdendo suas vidas.

Então veio a benesse que se converteu em castigo. O Senhor mandou codornizes que cobriram a terra por um raio de quase quarenta quilômetros e aproximadamente um metro de altura. A mão do Senhor não se encurta e a murmuração do povo foi tanta que Ele lhes deu o que queriam. Ao invés de usarem de gratidão e controle, caíram em um descontrole moral sem limites. Correram como um bando de desordeiros que saqueia um caminhão tombado e recolheram grandes quantidades, pegaram “tudo o que não necessitavam para uso naquele momento”. (Os Escolhidos. Pág. 231) Não satisfeitos se puseram a comer descontroladamente ao ponto de a carne das aves saírem pelos narizes e foram castigados enquanto ainda mastigavam, pois “Deus deu ao povo algo que não era para o seu bem porque eles insistiram em seu desejo. Então eles sofreram as consequências. O povo comeu sem limites e sua glutonaria foi imediatamente punida”. (Idem)

Você, líder, com certeza já precisou ceder algo que não era bom para o seu grupo, somente afim de que eles sentissem na pele que estavam errados e não buscassem isso nunca mais. E você, liderado, provavelmente se arrepende até hoje por conta de uma insistência infantil que ao ser autorizada somente te prejudicou. Tenho certeza que qualquer líder sensato abomina o falho método laissez faire, que prega o engano de deixar os liderados livres para fazerem o que bem entenderem. Nunca dá certo, com exceção de mostrar que não funciona por meio da máxima do Gandalf: “A mão queimada ensina mais”. Sabemos que não é bom deixar chegar a esse ponto, mas às vezes é necessário.

Outra semelhança que podemos perceber com o povo de Israel é o saudosismo de tempos piores, quando o grupo, por pura pirraça, por ter se descontentado com uma repreensão, por não ter a enganosa liberdade de agir como eu quando quer ou por mera falta de afinidade com a atual liderança se levanta em comparações com outros líderes: “no tempo de fulano era desse jeito”, “quando tal pessoa dirigia o clube a gente podia fazer isso”, “se fosse fulano seria diferente”. De fato, às vezes era melhor, mas há quem faça esse tipo de murmuração até quando antes não se tinha nada, quando tudo era feito de forma desleixada, mas em troca havia o que meus avós chamavam de “rédea frouxa” (e por favor não distorçam o que eu disse falando que chamei alguém de cavalo).

Mas o fato é: independente de sua posição anterior, da situação melhor anterior, capacidade atual de quem lidera ou da afinidade que se tem com quem lidera, não se deve trabalhar um grupo em cima de murmurações ou comparações (estas principalmente quando são motivadas pela falta de privilégios ou para atrapalhar). Não importa quem está no comando no momento e se você tem divergências, deixe a sua picuinha e saudosismo bem longe, onde não atrapalhe o andamento da obra de Deus. Seja líder de forma leal e não use a sua influência para atrapalhar.

 E quanto ao que você tanto anseia, mesmo sendo algo fora de nossos padrões de atuação, avalie bem o que deseja pois você pode conseguir e como diz dona Rita de Cássia, minha mãe: “Quem não ouve conselho, ouve coitado”. Não se deve gostar de dizer, mas às vezes é necessário falar aos insensatos:

- Eu avisei.

Pablo Rios

Pablo Rios

Líder Máster Avançado de Desbravadores

São José do Jacuípe/BA

Conselheiro no Clube Arautos da Fé ABN/ULB