Você está ouvindo?Data de publicação: 02/02/2020

Você está ouvindo?

Ultimamente tive várias oportunidades para refletir a respeito dos adolescentes, graças a uma pilha de portfólios da classe de Líder. Tenho orientado alguns aspirantes e, ao avaliar seus relatórios, percebo que a maioria sempre opta pela opção “a” do requisito 4 da seção I (crescimento pessoal e espiritual) que determina que o candidato faça “uma dissertação sobre a arte de falar para adolescentes, de três a quatro páginas”. Encaro essa escolha como algo extremamente positivo, mas não é sobre FALAR que eu quero discorrer.

Acabei de chegar à meia idade e junto com essa nova fase me veio uma epifania, uma compreensão de que durante muito tempo eu lidei de forma errada com os adolescentes que me procuravam em busca de conselhos ou que me eram submetidos à liderança ou disciplina. Talvez por ter passado toda a minha adolescência sendo tratado como alguém que precisa ouvir e, que muitas vezes, até calado estava errado. Vivi uma época em que o maior desejo da liderança era que alguém colocasse esses seres – mais que crianças e menos que adultos – na linha. Ajudei a perdurar essa filosofia até que veio o momento da mudança de pensamento.

De tanto ler relatórios e dissertações sobra a técnica correta de falar com adolescentes, percebi que temos focado demais no tomar a palavra e fazê-los nos ouvir. Mas nós os ouvimos? Acredito que mais importante do que saber falar para eles é saber ouvi-los. Todos têm algo a dizer e devem ter a oportunidade de fazê-lo, pois muitas vezes é só isso que falta e, em diversas ocasiões, pode ser a solução. Milhões de pessoas frequentam consultórios de analistas para falar de seus problemas. Quem já frequentou esses ambientes sabe que o que mais o paciente faz é falar. Será que nós, enquanto líderes, não podemos ouvir um pouco o que os adolescentes têm a dizer?

Sempre ouvi o adágio popular que diz: “Deus nos deu dois ouvidos para ouvirmos o dobro do que falamos”. Reconheço, envergonhado, que demorei muito tempo para aprender e proceder dessa forma. Quantas pessoas teriam permanecido nos caminhos do Senhor se eu tivesse dispensado 10 minutos para ouvir ao invés de falar? Quantos adolescentes teriam sido ajudados em suas depressões se tivessem oportunidade de dizer o que sentem, ao invés de serem recriminados por pessoas que acreditam que eles merecem apenas ouvir repreensões?

Se você é do tipo de pessoa que acha, por sua idade ou posição, que deve apenas falar e não pode ouvir alguém mais novo, por favor, pare agora de ler esse texto. Continue a massagear seu ego. Não tenho nenhuma intenção de fazer você mudar de ideia. Mas se você, mesmo sendo assim, reconhece que é hora de ouvir primeiro e falar depois, meus parabéns. Vamos corrigir esse erro juntos.

Acredito que falar é uma habilidade fundamental para quem deseja liderar. Mas saber ouvir é imprescindível para quem deseja liderar salvando do pecado e guiando no serviço. Talvez seja isso um devaneio meu e você discorde totalmente, porém eu pretendo continuar desenvolvendo minha oratória para adolescentes. Entretanto, exercitarei em dobro a capacidade de ouvi-los, pois me tem sido muito gratificante. Pode ser utopia, mas sonhar nunca foi tão bom.

Pablo Rios

Pablo Rios

Líder Máster Avançado de Desbravadores

São José do Jacuípe/BA

Coordenador Regional | MBN /ULB